terça-feira, 8 de junho de 2021

DICA DO DIA - Discurso do personagem no texto narrativo

Bem-vindos a mais um post. 

Na discussão de hoje quero focar em algo que pouco se fala, o Discurso do personagem no texto narrativo. Não, isso não se trata do discurso direto ou indireto, nada que se relacione a gramática, se trata de uma observação pessoal. No texto de hoje iremos analisar como o personagem se expressa através de seus pensamentos, diálogos e o que ele quer demonstrar através das ações deles e as cenas em que está envolvido.


Definindo o personagem

Em primeiro lugar, precisamos determinar qual a personalidade que esse personagem terá: seus aspectos físicos, socioculturais e psicológicos. 

Eu gosto de pensar que os personagens são construídos por camadas, inicialmente eles são apenas seres sem rosto e conforme vou pensando neles, eles vão se revelando a mim. Olhos negros, pele morena, sorriso discreto ou mãos pequenas. 

Tenho que admitir, não me prendo muito aos aspectos socioculturais, aqueles que definem o ambiente em que o personagem está inserido, como status social ou nível de escolaridade, eu gosto de ir desenvolvendo esses detalhes conforme a história avança, porem eu sempre tenho uma ideia básica de quem eles são e quem são as pessoas que os rodeiam; já os aspectos psicológicos são os mais importantes para mim, pois eles são as diretrizes que dirão o que o personagem pensará e como ele agirá.

Discurso através do comportamento

Sei que pode parecer óbvio, porém eu peço que vocês parem e imaginem o seguinte cenário:

Temos dois personagens, o gênero aqui não é importante. Um deles, o Personagem A, está olhando pela janela perdido em pensamentos; o outro, o Personagem B, olha fixamente para o Personagem A. Eles estão em uma cafeteria, seus cafés estão intocados, o ambiente é calmo e uma música toca ao fundo. 

O que isso diz sobre o discurso deles?

Poderia significar muitas coisas, porém tudo dependerá do que cada personagem irá pensar e mostrar. Esse é o momento que o discurso aparece. O que o personagem diz, mesmo quando o discurso é não-verbal, é extremamente importante.

Agora, observemos: O Personagem A estica a mão e toca no braço do Personagem B, com isso o Personagem A demonstra interesse no Personagem B, não? E se eu dissesse que o Personagem B olha para o próprio braço e… e o que vem a seguir? Ele se afasta? Ele cora? Ele toca no braço em cima do dele? Vocês percebem que cada uma dessas ações significa uma coisa diferente, um tipo de discurso diferente, com objetivos diferentes e pensamentos diferentes? Esse seria o momento de mostrar o discurso do Personagem B, o que ele pensará vai decidir a dinâmica da cena e sua própria índole.

O que quero mostrar aqui é que uma das formas mais eficientes de mostrar a personalidade de um personagem e fazer a história avançar de forma natural é mostrar as ações dos personagens; mostrar e não contar. Com ou sem descrições e monólogos internos, sua cena terá o suficiente para desenvolver o personagem, o discurso dele, isto é, o que ele pretende dizer com aquilo e, ao mesmo tempo, desenvolver os outros personagens ao redor dele.

Discurso através da fala

Agora, vejamos o seguinte diálogo:

— Eu preciso falar com você. Olhe para mim.

— Eu estou ouvindo.

— Então, porque você não me olha nos olhos?

O que esse diálogo nos diz? Qual seria o discurso de cada personagem? Para mim, é bem claro. Um dos personagens é mais agressivo, tentando ter sua vontade feita; o outro, tem uma atitude branda, de afastamento. O que isso diz sobre cada um deles?

O importante aqui é que cada um consegue se expressar claramente, mostrando suas personalidades perfeitamente.

Discurso através da ambientação

“Eles estavam naquele restaurante que havia acabado de inaugurar, uma indicação de seus amigos. Personagem A desconfiava ser uma perda de tempo, mas ele gostava da atmosfera tranquila e do bom gosto da decoração. Seus cafés tinham chegando após cinco minutos de espera, a garçonete os servindo rapidamente e se retirando. Ele olhou em seu relógio, vendo que já estava passava das duas da tarde, sabendo que estava atrasado, entretanto, se ele conseguisse que a pessoa sentada a sua frente o olhasse nos olhos teria valido  o esforço.”

Esse é um bom exemplo de descrição de ambientação. É dinâmico, nos dá informações sobre o ambiente e os personagem e deixa claro qual é o discurso por trás dos pensamentos do personagem, seu objetivo principal.

É claro que nesse trecho não há apenas uma descrição do ambiente, isso seria chato e sem sentido. Sempre achei mais interessante misturar vários aspectos em um mesmo parágrafo a fim de fazer uma narrativa que entretém.

Conclusão

Para encerrar, gostaria de deixar aqui um pensamento. 

O discurso do personagem pode e deve ser feito de variadas maneiras. 

  • Ele pode ser feito de forma a enganar os leitores, mostrando o personagem agindo de uma forma e pensando de outra como um meio de atingir seus objetivos;

  • Ele pode ser feito para mostrar a indecisão ou insegurança do personagem;

  • Ou as ações do personagem podem ser feitas para transparecer exatamente o que o personagem está pensando.

O fato a destacar é: Escreva com consciência. Tenha controle sobre o que acontece na história, como os personagens agem e qual o contexto que estão inseridos, trace uma linha psicológica para cada personagem e as siga até o clímax da história.

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